Fora das Jóias da Bedeteca

Tendo feito doação ao município da Amadora dos originais da série Ave rara que publiquei durante cinco anos num jornal regional da cidade, desloquei-me à Bedeteca da Amadora para ver qual seria o original escolhido como “jóia da Bedeteca” no âmbito da exposição ali apresentada, constatando que… não tenho qualquer original incluído na mostra! Achei por bem vingar-me, escrevendo esta crónica.

A Bedeteca da Amadora tem patente, até 26 de agosto, a exposição ‘Joias da Bedeteca’, mostra de algumas das obras originais que são pertença do seu acervo e que constituem a memória da banda desenhada portuguesa.

No texto de apresentação que assina para a página da Câmara Municipal da Amadora, o programador cultural da Bedeteca, Pedro Moura, evidencia que as peças na exposição presente não são senão a proverbial gota de um oceano ainda oculto, mas que urge apresentar.”

Quando se apresenta ao público uma única gota dum mais rico oceano, há, naturalmente, uma opção de programação, traduzida na escolha de apresentar aquela gota e não outra das muitas que integram o tal oceano. Esta escolha obedece, naturalmente, a um critério.

A exposição apresentada não evidencia qual o critério subjacente adoptado, nem um tal critério é evidente para o visitante.

Fico sem saber qual a razão pela qual o meu trabalho não é uma jóia!

Posso concluir que não se pretendeu mostrar exemplos de todos os autores que fizeram doações à Amadora (até porque não sou o único ausente) e que não se pretenderam mostrar as melhores jóias (já que estou acompanhado por alguns ausentes notáveis). Mas não consigo concluir mais do que isto.

E diga-se que, se o critério era apenas ocupar as paredes daquela sala da Bedeteca, os originais da Ave Rara até têm um prestável formato A4.

Falando mais a sério, esta caraterística da falta de evidência de critério (e consequente falta de percurso na mostra) já era apontada ao festival internacional de banda desenhada da Amadora (Amadora BD) e aparece agora muito na restante atividade promovida pela Amadora em torno da banda desenhada. Não significa necessariamente que não exista um rumo, mas significa que o rumo não é perceptível nem identificável, com prejuízo para o projeto da cidade.

Abstraindo da discutível qualidade gráfica e narrativa da Ave Rara, não será importante que a Amadora mostre que tem os originais duma série que nasceu e viveu na cidade? E se o critério adoptado se sobrepuser a este interesse local, não será melhor evidenciá-lo? Um verdadeiro projeto passa necessariamente por um sentido.

No distante ano 2000, quando se inaugurou o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), o grande propósito do executivo municipal era demonstrar que a banda desenhada, na Amadora, seguia um caminho, para além da festa que, durante cerca de quinze dias, era o festival. Foi por isso que o CNBDI assentou a sua atividade numa base bem identificada, com exposições que requeriam uma leitura mais demorada ou mostras que iam além da oferta tradicional do festival (assim se inauguraram as mostras dedicadas ao trabalho de argumentistas, e assim se afirmaram apostas fortes, como as mostras em que a banda desenhada entrava em diálogo com outras formas artísticas ou de comunicação ligadas à imagem).

Com o fim do CNBDI, esta aposta não foi retomada. Pelo menos, insiste-se, em termos que permitam às pessoas identificar estas linhas de ação.

Sem os meios de que dispunha o CNBDI (ou de que dispõe a Bedeteca, por exemplo), o Clube Português de Banda Desenhada tem procurado desenvolver iniciativas que sejam mais do que “pranchas na parede”, o que muitas vezes implica fazer mais qualquer coisa além da exposição.

Uma coisa é mostrar que se tem jóias. Coisa diferente é mostrar que se sabe o que representam as jóias adquiridas. Afinal, os porcos de que fala o ditado também receberam pérolas.

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