Filipe Andrade

O Lugar de Filipe Andrade

A belíssima curta “No Meu Lugar”, de André Oliveira e Filipe Andrade, tem diversas leituras, mas recordou-me a história da abordagem de Andrade ao mercado norte-americano (até encontrar o seu merecido lugar de destaque), tal como ele me relatou em 2011, em entrevista para o catálogo do AmadoraBD.

Tudo começou em Novembro de 2007, quando um amigo telefonou a Andrade dizendo-lhe que tinha lido no jornal Destak que CB Cebulski, o “caça-talentos” da Marvel (que esteve no Festival da Amadora em 2009), na altura a organizar uma tour mundial justamente à procura de novos talentos, estaria nesse mesmo dia em Lisboa a avaliar portefólios para um evento chamado ChesterQuest.

Acabei por ter tempo para voar até casa, organizar um portefólio e voltar para Lisboa, no espaço duma hora. Na altura nem falava bem inglês e até foi com ajuda da minha namorada, que falava bem melhor inglês que eu, que mostrei o meu portefólio. O CB teceu-me alguns elogios mas acabei por não ser escolhido. Essa foi a primeira vez que mostrei o meu trabalho a alguém do meio da BD a nível internacional. Deu-me dicas importantes que recolhi e tentei usar nos trabalhos seguintes.

Andrade foi por três vezes ao Festival de BD de Angoulême, onde voltou a mostrar portefólios atualizados, não só a editoras franco-belgas, mas também ao suspeito do costume, CB Cebulski. Apesar da falta de resultados práticos, também Andrade considera estas experiências importantes, na medida em que permitiram travar conhecimento com pessoas da indústria.

Dei o salto quando decidi submeter uma história que fiz em conjunto com o João Lemos, do Spiderman, de 5 páginas. Enviei e o CB gostou e acabou por me dar um argumento oficial dos Runnaways para trabalhar nele. Isso aconteceu quando já estava em LA, a estudar na Gnomon School. Acabei por ainda ir à San Diego ComiCon, mostrar mais uma vez o portefólio, e as criticas faziam-me crer que estava de cada vez mais perto de entrar no competitivo mundo da Marvel. Assim foi.

Fiz a tal sample que o CB me pediu e mostrei-lho na Amadora de 2009. Na altura já falando melhor inglês, pedi que me desse uma resposta de “sim ou sopas”. Ele disse que voltaríamos a falar em breve e passado uma semana apareceu-me um e-mail na caixa de entrada, dum outro editor, Michael Horwitz, a perguntar se estava interessado em trabalhar num titulo da Marvel, do super-heroi Iron Man. Como é óbvio, a resposta foi sim.

A partir daí foram uma sucessão de trabalhos de grau de dificuldade elevada, a nível de tempo principalmente, que cumprindo me acabaram por dar algum estofo e credibilidade perante os editores da Marvel que me foram dando mais trabalho e com maior visibilidade e risco”.

Filipe Andrade

Poucas pessoas em Portugal fazem ideia do que implica trabalhar para uma editora como a Marvel, sendo por isso importante o testemunho do autor:

“Trabalhar para a Marvel implica, acima de tudo, eficácia. Para isso tem de haver alguma disponibilidade mental e física para estar 24 horas e 7 dias por semana disponível, para fazer com que as coisas aconteçam. É um processo às vezes, doloroso, pelas contrariedades que qualquer projecto tem, com o ponto em desfavor de normalmente a equipa ter pessoas espalhadas pelo mundo inteiro.

(…)

O processo normal é receber por e-mail um argumento aprovado e delineado pelo escritor e editor. Depois, cabe-me a mim fazer a planificação para que seja aprovada pelos mesmos. Uma vez aprovada, passo ao desenho página por página. Envio normalmente aos pares de pranchas em baixa resolução. Se houver algum problema, corrijo e, finalmente, envio em alta resolução para o servidor da Marvel. Daí, segue para o colorista, que se for um gajo porreiro segue as indicações que normalmente deixo. Uma vez coloridas as páginas, passam pela minha revisão e pela do editor. Se ficar tudo fechado, vai a imprimir. Pelo meio do processo é acordado entre o balonista e o editor toda a balonagem da história. Preview na net, impressão e loja.

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No Meu Lugar”, de André Oliveira e Filipe Andrade, tem diversas leituras, mas recordou-me a história da abordagem de Andrade ao mercado norte-americano (até encontrar o seu merecido lugar de destaque), tal como ele me relatou em 2011, em entrevista para o catálogo do AmadoraBD." />