20 Obras essenciais de 2014

Esta é uma lista das 20 melhores obras de BD editadas em 2014, fruto de uma sondagem a colaboradores regulares. Não são uns novos prémios, é um lembrete de obras que foram editadas e que por aqui se julga que merecem ser destacadas.

É a opinião parcial de quem colabora de modo regular ou irregular no aCalopsia, sete votantes ao todo – nem todos os que colaboram foram convidados, nem todos os que foram convidados votaram, e neste artigo existem citações de quem não votou e nem é colaborador mas que são utilizadas para dar alguma contextualização às obras.

Quem foi o Júri? Vão ter de perguntar a cada um dos colaboradores, eles se quiserem que se acusem ou não, foram consultados para a listagem ser mais democrática e representativa das opiniões de quem colabora por cá, não para validarem as escolhas ou servirem de escudo a decisões menos populares. O aCalopsia também é feito graças às várias colaborações que existem e não fazia sentido, para mim, realizar uma listagem só com a minha opinião.

De salienar que só um dos 20 títulos foi unânime, constava na lista de todos, e que obviamente nem todos leram todos os títulos editados em Portugal, seja por falta de interesse, questões monetárias, falta de tempo ou outros motivos.

São 20 títulos editados em 2014 que merecem ser salientados, antes que sejam esquecidos pela voragem das novidades.

Uma listagem não deveria necessitar de tantas explicações, mas tudo o se assemelhe a prémios ou listas dos melhores costuma ser terreno fértil para discussões neste país.

As 20 obras estão divididas em quatro categorias:

Os 5 melhores álbuns portugueses de 2014

Álbuns escritos em português ou em outra língua, em que a editora é portuguesa e pelo menos um dos autores (argumentista ou desenhista é português).

Por álbum entende-se publicações com mais de 48 páginas (mesmo que só tenham 40 páginas de BD, realizado por um autor ou uma equipa. Antologias com vários autores não entram nesta categoria, colectâneas de material de um autor ou equipa criativa contam.

Os 5 melhores álbuns estrangeiros editados em Portugal

Mesma regras que o anterior, revistas não contam, edições especiais como as da Panini contam, com excepção de serem trabalhos realizados por autores estrangeiros e originalmente editados por editoras estrangeiras.

As 5 melhores edições independentes portuguesas de 2014

Isto é quase uma maneira pomposa de dizer “os 5 melhores fanzines de BD”. Edições de um autor com menos de 48 páginas (como os mini-comics e fanzines assumidos); antologias de vários autores independentemente de terem 10, 20, 40 ou 100 páginas.

Esta é uma categoria que para o ano é capaz de ser dividida em duas:

  • Melhor Antologia: trabalhos realizados por vários autores, sejam edições únicas ou publicações regulares aperiódicas.
  • Melhor mini-álbum: traduzindo o termo mini-comic para o português num termo que define bem trabalhos curtos (com menos de 48 páginas) que já permitem desenvolver uma história mais complexa que uma curta para uma antologia, mas são mais curtas e envolvem menos trabalho por parte dos autores que um álbum a sério.

Independentemente dos critérios legais de ter ISBN e depósito legal, existem vários títulos que existem com estas categorias e até justificam uma separação. Trabalhos como Solomon, Pizzaman e Molly são algumas das ausências nesta categoria, por existirem menos vagas devido à presença das antologias.

É uma questão a rever para o ano, mas este ano esta listagem já estava atrasada e que também está dependente de os colaboradores lerem mais obras com estas características.

As 5 Melhores reedições de 2014

Obra de autores nacionais ou estrangeiros publicada anteriormente na íntegra ou parcialmente em formato álbum em Portugal. Não é só uma avaliação do trabalho dos autores, mas também do trabalho dos editores na preservação, e contínua edição de obras de valor. É também uma maneira de salientar que apesar de tudo existem obras que até tem mais do que uma edição.

Obras que foram parciamente editadas são contabilizadas como re-edições, independentemente de serem uma nova edição com duas ou três páginas ou uma centena. É um critério.

Agora que acabaram as apresentação vamos lá aos “20 mais” de 2014.

As Melhores reedições

A Pior Banda do Mundo Vol. 1

José Carlos Fernandes, Devir (ed)

Bem vindos ao paradigma da BD comercial portuguesa! “A Pior Banda do Mundo” é uma das mais aclamadas obras de banda desenhada da BD portuguesa, e um sucesso comercial que consegui vender mais que algumas edições supostamente “comerciais” da Devir.

Após a edição e re-edição dos seis volumes iniciais, “A Pior Banda do Mundo” regressou em 2014 em dois volumes de luxo pela Devir. Era uma edição com o cuidado gráfico que a obra de José Carlos Fernandes merecia, quem ainda não tinha a obra e até quem já tinha as edições originais pode agora ter um bela edição da obra em capa dura. Excelentes valores de produção da Devir a fazer juz ao trabalho.
Sobre esta obra de José Carlos Fernandes, em particular, voltaremos a falar dela com mais detalhe em breve.

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Maus

Art Spiegelman, Bertrand (ed)

Edição integral da uma obra incontornável da BD. “Maus” dispensa apresentações e é mais um caso paradigmático da BD comercial aclamada criticamente. Maus é leitura essencial pela qualidade e relevância histórica: é uma das obras responsáveis pelo reconhecimento da banda desenhada como expressão artística e capaz de abordar temas complexos.

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O Amor Infinito que Te Tenho

Paulo Monteiro, Polvo (ed)

A obra de BD portuguesa mais traduzida de sempre, premiado em Portugal, França e Espanha. Já ouviram falar de “O Amor Infinito que Te Tenho e Outras Histórias de Paulo Monteiro? É provável. Nós por aqui até temos falado um bocado, e existe uma critica por publicar, mas como já ia em 7000 caracteres foi ficando de lado, por um lado por não me apetecer pegar no texto, por outro lado por o álbum já ser antigo. Contudo, este álbum tem tido vida para além da sua edição original, lá fora e cá dentro.

Esta é a 3ª edição de “O Amor Infinito” pela Polvo, o que volta a tornar a publicação da tal crítica em algo actual. Existe quem tenha tiragens pequenas (inferiores a 1500 exemplares) mas considere supérflua a reedição de obras, embora quando as tiragens são pequenas não tenha justificação. Ao longo dos anos, a Polvo tem vindo a ter uma política de reedição consistente de títulos que têm uma procura por parte dos leitores. E a reedição de obras é fundamental para fazer crescer o mercado e o público dos autores possuem.

A poesia gráfica de Paulo Monteiro nunca vai rivalizar em vendas com Astérix, mas a sua reedição permite-lhe ir encontrando um novo público a cada ano que passa.

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Toda a Mafalda

Quino, Verbo (ed)

A contestatária de Quino celebrou 50 anos em 2014 e a Verbo (Grupo Babel) editou toda a obra numa só edição.

Humor e crítica social, numa da obras fundamentais da BD. É a Mafalda de Quino, vão ler!

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O Livro dos Dias

Diniz Conefrey, Pianola Editores/Quarto de Jade

Edição integral de “O Livro dos Dias”, parcialmente editado pela Devir, esta obra de Diniz Conefrey tem “como base vários textos que fizeram chegar até nós o conhecimento e o sentido poético que caracterizaram os povos indígenas da região da antiga Cidade do México, conjuga-se nesta narrativa gráfica uma formulação que tenta espelhar, na interpretação entre a palavra e a imagem, o ritmo interior de uma sociedade.”

Esta é uma daquelas obras que exige disponibilidade do leitor, como até o próprio texto de apresentação, mas que justifica uma leitura atenta, e que até tinha estado esquecida por aqui.

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Melhor edição independente

Living Will

André Oliveira (arg.) e Joana Afonso (des.), Ave Rara (ed.)

A popularidade de Living Will pode parecer excesiva para uma revistinha de 16 páginas, sem distribuição nacional e tiragem limitada a 500 exemplares. Contudo, é fácil de explicar pelo trabalho desenvolvido pelos autores, não só no âmbito da BD em si, mas também na procura do público. André Oliveira e Joana Afonso são presença regular nos médios/grandes eventos de BD e o livrinho tem sessões de lançamento e apresentação nos mesmos. Apesar de Joana Afonso já ter “nome” aquando do lançamento de Living Will e André Oliveira já ser conhecido no meio, parte do seu sucesso advém do trabalho de promoção feito pelos autores.

O facto de ser uma série regular também contribui para a sua popularidade: ainda vamos andar mais uns anos a falar de Living Will, faltam ainda mais quatro números. Living Will merece ser lido pela história e o modelo de publicação considerado pelos autores para a publicação de projectos extensos: “Living Will”, quando estiver concluído, será uma história de 112 páginas.

Já agora, este título é quase unânime!

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Crumbs

Vários, Kingpin Books (ed)

A obra que marca a “Chilificação” da Kingpin Books – desculpem lá, mas a primeira coisa de que lembro quando vejo a “Crumbs” é da “Kuš!”, antologia da Letónia editada em formato similar. Antologia de vários autores que são presença habitual na editora, conta ainda com a colaboração de novos autores, incluíndo por autores da Chili… Isto às vezes parece que as editoras são como os partidos políticos ou como os clubes de futebol: “só se pode ter um”. Em abono da verdade, esta não é a primeira edição da Kingpin Books por ou com autores editados por outras editoras.

“Crumbs” tem uma escolha de nome infeliz: migalhas remete para restos, quando esta obra é mais um aperitivo, umas entradas que permitem contactar com um grupo vasto e diverso de autores nacionais: André Oliveira, Fernando Dordio, David Soares, Mário Freitas, Pedro Cruz, Francisco Sousa Lobo, Nuno Duarte, Joana Afonso, Ana Matias e Zé Burnay; André Caetano, Bernardo Majer, Pedro Serpa, Sérgio Marques, Pedro Cruz, Osvaldo Medina, Inês Galo, Joana Afonso, Ricardo Venâncio, Zé Burnay, André Pereira e Afonso Ferreira.

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Safe Place

André Pereira e Paula Almeida, Kingpin Books (ed)

Esta é daquelas obras que justificam ter uma “categoria” de melhor mini-álbum. Safe Place não é uma obra extensa o suficiente para ser considerado um álbum, mas já possui um tamanho que permite a realização e avaliação de uma história mais complexa que uma BD curta.

Safe Place” é uma edição deliciosa, com bom design, bom argumento e bom desenho. É pequeno, mas vale a pena.

Com um registo gráfico notável, abordando subtilmente conceitos da cultura digital contemporânea, Safe Place é uma fábula sobre o crescer na era digital.
Artur Coelho

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QCDA

Vários, Chili Com Carne

Começou como sendo uma edição dos Quatro Chavalos do Apopcalipse para se tornar numa edição das Quatro Chavalas do dito.

Com duas edições em 2014, QCDA é o título que mais se assemelha a um fanzine “à moda” antiga: publicação aperiódica de vários autores, mas com uma diferença substancial: o elo de ligação dos diferentes números é conceptual e não autoral.

Os fanzines de “outros tempos” eram antologias de vários autores, aperiódicas mas regulares, que permitiam aos autores irem publicando com regularidade, o elo de ligação entre os vários números era mais do que o formato, os colaboradores/autores. Em QCDA, o que se verifica é o oposto: o único elo de ligação entre ambos os números é serem uma publicação de quatro “novos” autores, em formato A3, impresso a vermelho… Sinais da evolução dos tempos.

Entretanto, como não se sabe se o QCDA chega ao 3000, para já ficam duas edições apresentando trabalhos de oito autores: André Pereira, Afonso Ferreira, Rudolfo, Zé Burnay, Amanda Baeza, Hetamoé, Sílvia Rodrigues e Sofia Neto.

qcdanet

O Andar de Cima

Francisco Sousa Lobo
Edição:  Chili com Carne, Faculdade de Ciências e Tecnologia e Ar.Co

Eu confesso que não percebo o fascínio que Francisco Sousa Lobo exerce sobre algumas pessoas. Não percebo mesmo! Agora a verdade é que o trabalho de Sousa Lobo recebe elogios dos mais distintos campos, desde pessoas com gostos assumidamente “independentes e alternativos”, até dos que defendem o que é “comercial”.

Francisco Sousa Lobo consegue um feito semelhante a José Carlos Fernandes: a nível estético e temático é claramente um autor que entra na definição de “alternativo”, mas consegue agradar a público que não se identifica com esse “estilo”. A diferença de sucesso comercial, pode é ser algo que não é derivado ao trabalho do autor em si.

Após “Desenhador Defunto”, “O Andar de Cima”, colaborações em “Quadradinhos” e “Crumbs”, este ano o autor irá editar um novo álbum, pelo que Sousa Lobo começa já a ser dos autores portugueses incontornáveis.

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Melhor álbum estrangeiro

Eu Mato Gigantes

Joe Kelley (arg.) e JM Ken Niimura (des.), Kingpin Books (ed.)

Esta obra é um bom exemplo daquilo que se poderá considerar a linha editorial da Kingpin Books: BD independente realizada dentro de géneros comerciais, por contraponto a trabalhos mais pessoais e “auto-biográficos”.

Publicada nos Estados Unidos pela Image Comics, “Eu Mato Gigantes” é escrito por um argumentista habituado às grandes editoras, embora este trabalho seja mais pessoal e realizado fora dos contrangimentos dos trabalhos realizados para a Marvel e DC e com controlo criativo sobre a obra e personagens. A arte está a cargo de JM Ken Niimura, cujo minimalismo do traço consegue ser irritante: o traço está depurado de todas as linhas desnecessárias, o que cria uma falsa ideia que é “simples”. Só o trabalho de Niimura já era suficiente para recomendar esta obra, mas sobre ela (e com o desenhista) voltaremos a falar em breve.

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Logicomix

Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou (arg.) Alecos Papadatos e Annie Di Donna (des), Gradiva (ed.)

É usual a Gradiva ser esquecida quando se fala de editoras de BD, não sendo uma editora unicamente de BD e apesar de ter uma actividade a nível de edição de BD “pequena”, a verdade é que há vários anos que a editora publica com regularidade, em particular, colectâneas de tiras humorísticas (como Calvin & Hobbes, republicado na íntegra em 2014) e obras inesperadas como este Logicomix, sobre a vida enquanto jovem do brilhante filósofo Bertrand Russell.
Uma aventura no mundo da razão – outra forma de lidar com a beleza.

Uma aventura no mundo da razão – outra forma de lidar com a beleza.
Francisco José Viegas in Correiro da Manhã

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Habibi

Craig Thompson, Devir (ed.)

A Biblioteca da Alice é uma colecção da Devir onde surgem algumas apostas inesperadas da editora, servindo para contrabalançar prosposta teóricamente mais “comerciais” como Naruto ou The Walking Dead. Habibi surge na sequência de “Blankets” de Craig Thompson que a editora também já tinha publicado em Portugal.

A importância de compreender o que significa, de facto, a diferença cultural, a própria possibilidade de perspectivas outras que não a nossa, é profunda, complexa e difícil. É muito fácil olhar para determinadas conquistas sociais e políticas eurocêntricas como “universais”, seja o voto das mulheres, a escolaridade obrigatória, a água canalizada, as vacinas ou a comunicação digital de 4ª geração.
Pedro Moura in Ler BD

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Saga

Brian K. Vaughan (arg) e Fiona Staples (des.), G. Floy (ed.)

Outra das apostas inesperadas, não pela qualidade, mas pelo conservadorismo que costuma caracterizar as editoras nacionais, “Saga” marcou o regresso da G. Floy, editora que aposta forte na Image, uma das grandes editores norte-americanas e onde tem aparecido alguns dos projectos mais interessantes da BD norte-americana dos últimos anos. A Image tem vindo a afirmar-se como o terreno preferencial para autores das Duas Grandes (Marvel e DC) desenvolverem projectos de ficção de género (terror, ficção científica, policial, super-heróis) e reterem o controlo da propriedade intelectual e criativa.

“Saga” é uma história de ficção científica que narra a história de dois amantes de raças rivais que o público consome ávido enquanto a crítica aclama. É uma daquelas apostas que pareciam óbvias mas que ninguém fazia. É uma edição que é de louvar, em particular por ser uma obra que tem o potencial para atrair novos públicos.

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Serpentes de Água

Tony Sandoval, Kingpin Books (ed)

Onírico e visceral, Serpentes de Água é a primeira aposta “a sério” da Kingpin Books em autores estrangeiros. O pior que se pode dizer da arte do autor mexicano é que ele não sabe desenhar pior: o traço é espontâneo e pouco cuidado. Na realidade, a arte é os esboços a lápis e sem régua de Sandoval, pintados a aguarela digital. O trabalho é crú e são visíveis os traços desnecessários. Esta crueza do desenho pode desagradar a alguns, mas é uma opção artística do autor que, nas páginas em que apresenta um trabalho mais polido, evoca a magia de Hayao Miyazaki.

Após ter ganho o troféu de Melhor Álbum Estrangeiro no AmadoraBD e de o editor ter prometido outras edições de Sandoval, o autor mexicano é mesmo um novo autor a descobrir.

As Serpentes de Água leva-nos a um mundo onde o que é não parece e criaturas de magia mantém acesas lutas milenares. Um mundo que está mesmo ao nosso lado, mas é preciso o olhar de uma criança inquisitiva para o revelar.
Artur Coelho in aCalopsia

Serpentes-de-Agua

Melhor álbum nacional

Sepulturas dos Pais

David Soares (arg.), André Coelho (des.), Kingpin Books (ed.)

Ainda o álbum não tinha sido editado e já o Pedro Moura estava a tecer-lhe loas e já disse que cumpriu as expectativas. Eu não me vou alongar muito sobre este álbum, tenho uma crítica para escrever onde o poderei dissecar em pormenor. Por agora, sugiro que leiam o artigo sobre a apresentação da obra pelos autores. Deixem-me só salientar que este é o único título destes 20 que conseguiu uma unanimidade de opiniões por aqui.

A magia existe, [mas] não quer saber se estamos na ruína ou não.
David Soares

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Hawk

André Oliveira (arg.), Osvaldo Medina (des.) e Inês Falcão Ferreira (cor), Kingpin Books (ed.)

A estreia num trabalho de fôlego de André Oliveira, premiado no AmadoraBD com o prémio de melhor argumento, conta com a colaboração do prolífero Osvaldo Medina. Eu não tenho estado a apontar mas deve andar a publicar um álbum por ano desde que “surgiu” com A Fórmula da Felicidade, escrita por Nuno Duarte.

Estamos em crer, porém, que este era um livro necessário, sobretudo aos seus autores. Talvez como ao valor terapêutico e redentor do voo final do falcão em relação a Vicente, que não lhe resolve nada mas o coloca na senda do seu próprio caminho autónomo, a libertação deste livro no espaço público também signifique um hausto novo aos seus criadores.
Pedro Moura in Ler BD

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F(r)icções

Nuno Duarte (arg.), João Sequeira (des.), El Pep (ed.)

Depois de uma colectânea de histórias antigas em Psicose, João Sequeira regressou em 2014 com um álbum de contos curtos, escritos por Nuno Duarte, apresentando uma história de géneros díspares como o western ou o policial. Apesar de não ser uma história completa, F(r)icções é uma obra longa que permite avaliar a qualidade e consistência dos autores, em particular a nível do desenho.

As histórias de Nuno Duarte têm as limitações que a ficção curta possui: pouco espaço para o desenvolvimento de situações e personagens, sendo possível avaliar a versatilidade do argumentista e identificar elos de ligação temática com outras obras, o álbum não tem, como seria de esperar, a coerência temática que se encontra em Miguel Montano: Manancial da Lua ou A Pior Banda do Mundo, por exemplo, obras que exploram uma temática através de contos curtos, em vez de apresentarem histórias de géneros díspares. A qualidade e consistência do trabalho de João Sequeira torna F(r)icções num bom aperitivo para o que os autores poderão realizar a seguir e, para os apreciadores de BD a preto e branco, é um trabalho que não decepciona, muito pelo contrário.

Reunindo quatro histórias, poder-se-ia dizer que os autores tentam experimentar, e conseguindo-o, vários géneros, partindo de fórmulas conhecidas para criar pequenos desvios.
Pedro Moura in Ler BD

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Deixa-me Entrar

Joana Afonso, Polvo (ed.)

A obra da maioridade de Joana Afonso, ou se quisermos da sua emancipação. Joana Afonso é um caso sério de popularidade e produtividade. Publicou histórias curtas, estreou-se num álbum com o premiado O Baile, escrito por Nuno Duarte, e tem vindo a publicar Living Will, escrito por André Oliveira. Deixa-me Entrar marca a sua estreia como argumentista numa obra longa e marcando o regresso de um dos seus pontos fortes: a cor.

Este Deixa-me Entrar obedece a toda uma outra sensibilidade mais humanista, próxima do romance, e fundamentalmente enternecedora. O livro é romântico, quase neo-realista, apesar de alguns toques muito bem conseguidos de humor.
Artur Coelho in aCalopsia

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Cidade Suspensa

Penim Loureiro, Polvo (ed.)

O regresso pouco aguardado de Penim Loureiro, não por demérito dele, mas das vicissitudes do mercado: existe um vasto manancial de autores que nunca passaram de promessas. A geração de 1980 é pródiga em autores que desapareceram sem publicar um único álbum. É isso que torna o regresso pouco aguardado: se fossemos estar à espera do regresso de todos os autores que, em décadas passadas, realizaram alguns trabalhos promissores, não teríamos mais nada para fazer. Este regresso fica marcado por uma história ambiciosa, que condensa em 64 páginas uma narrativa que poderia ser desenvolvida ao longo de centenas de páginas.

Relato com sabor a catarse que foca as vidas e amizades de diferentes personagens desde a infância nos anos 1970 aos nossos dias, inicia-se como um registo semi-autobiográfico focando a evolução de indivíduos; marcada, para além de acontecimentos esperados (como o PREC, a queda do muro de Berlim, ou 11 de Setembro de 2001), por um misterioso momento traumático no Norte de África em 1980, com repercussões conspirativas em série que se estendem até ao presente.
João Ramalho-Santos in Visão

Cidadade suspensa capa
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