Uma Leitura Para Férias: O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias

Parece impossível mas ainda há leitores de banda desenhada portugueses que não conhecem O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias, de Paulo Monteiro, título fundamental da banda desenhada nacional dos últimos anos, publicado pela Polvo.

Fazendo o convite aos leitores para que a incluam na lista de leituras para férias, aqui recupero algumas das ideias do autor, avançadas no âmbito de uma entrevista publicada no catálogo de 2012 do AmadoraBD.

Sobre a descoberta da BD:

Na verdade aprendi a ler com as revistas Tintin do meu irmão (nasci em 1967, no ano anterior ao da revista). Durante uma boa parte da adolescência deixava-me absorver com toda a facilidade pela atmosfera das histórias. Viajava da Selva Amazónica até à Sibéria, passando pelo Alasca sem sair de casa! Lia muito: Jacobs, Mézières, Hergé, Hermann, Pratt e dezenas de outros autores. E também muitos escritores: London, Stevenson, Salgari… Em miúdo ia para a escola com a pasta cheia de revistas de banda desenhada. Era uma sensação muito forte, o apelo da aventura. Por isso, desde que me lembro, sempre quis ser autor de banda desenhada (entre muitas outras coisas!). A vida no papel parecia-me uma bela aventura. E poder ser eu a escrevê-la e desenhá-la parecia-me ainda melhor. Trabalhava muito o meu desenho, desenhava horas a fio, escrevia histórias sem parar. Além de fazer milhares de outras coisas. Sempre fui (e sou) uma pessoa muito dispersa nos meus gostos. Gosto de demasiadas coisas e tenho muito interesses, para me poder dedicar especialmente só a uma. Mas nunca deixei de escrever argumentos, de pensar e esboçar muitas histórias. Comecei a dedicar-me “mais a sério” à banda desenhada a partir de 2005 porque fiz outras coisas antes. O facto da Bedeteca de Beja ter sido inaugurada nessa altura e da minha vida passar a girar praticamente à volta da banda desenhada 24h por dia, não terá sido alheio a esse apelo, como autor…

Sobre o Paulo enquanto ponto de partida para as histórias do livro:

Sim, a maior parte das histórias parte das minhas vivências pessoais. Que são, no fundo, vivências que encontram expressão na vida de todas as pessoas. Acho isso muito interessante. Não é que faça as histórias a pensar se as pessoas se vão rever nelas ou não, mas acaba por acontecer. Essa questão da segurança (de que nunca me tinha lembrado) talvez faça sentido… Se calhar é uma forma de “não perder o pé”, de ter uma referência concreta. Por um lado talvez seja mais confortável, mas por outro obriga a um maior grau de exposição pessoal.

Sobre as histórias A Tua Guerra Acabou e Porque é Este o Meu Ofício:

São histórias muito autobiográficas. Foram muito difíceis de fazer. Todas são, porque sou muito “maníaco” com os desenhos, às vezes quase obsessivo. E com o texto também. É horrível, nunca estou satisfeito! (hoje, se pudesse, mudava uma série de coisas no livro). Como são histórias muito pessoais sobre a perda (“A tua guerra acabou” é sobre a morte do meu avô) e sobre a fatalidade da perda (“Porque é este o meu ofício” é sobre o meu pai – e em última análise sobre os meus pais) foi-me difícil desenhar e escrever sobre isso. Não senti que existisse um risco maior na gestão do tempo de leitura, porque apesar de tudo são histórias muito curtas. Houve foi um grau de envolvência emocional mais forte.

Sobre o equilíbrio entre o Paulo metódico e racional e o Paulo instinto de emoção:

Sou muito emocional a desenhar (rasgo, deito fora, saio para a rua doido quando não consigo o que quero, aborreço-me comigo próprio, é terrível!), como sou emocional na vida em geral. Não controlo muito bem as minhas emoções. Por um lado é bom, mas por outro parece que vivo sempre com um sopro no coração. Quanto a emocionar-me a realizar uma história de banda desenhada, nunca aconteceu. As minhas histórias partem da minha relação com os outros e com o mundo. São um ponto de chegada, o resultado de uma série de emoções que tive e sinto necessidade de partilhar. Mas emociono-me com muitas outras coisas. Altero períodos de verdadeira euforia com momentos mais complicados, mais introspectivos. Às vezes pareço uma montanha russa… Mas emocionar-me a realizar as minhas histórias não…

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